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A AFOGADA

  • 26 de jun. de 2023
  • 3 min de leitura

Mamãe ficava tempo demais naquela banheira. Eu ficava muito triste por meus pais não me explicarem nada direito. Eu dizia a eles que já era adulto o bastante. "Já tenho onze anos!". A única coisa que papai dizia é que ela estava doente, por isso, precisava ficar com a pele úmida. Os idiotas da minha escola viviam me irritando, dizendo coisas idiotas como “Chama lá sua mãe, ou ela tá nadando na piscininha ainda?”.

Não gostava de ninguém da minha turma. Eu só conversava com mamãe através da porta fechada do banheiro. Eu mal a via. Muito raramente ela saía para esticar as pernas, dar uma volta, mas logo ela já estava de volta para a banheira. Uma vez, insistindo em perguntar, eu a disse:

“Mamãe, por que a senhora fica aí dentro? Não é gelado?”

“Não, filho. É que a minha pele queima se eu não ficar aqui dentro. Sinto muito por isso”

“E por que sua pele queima?”

“Vamos falar de outra coisa, que tal? Como foi seu dia na escola?”

Era sempre assim, ela sempre desconversava e me enganava, desviando do assunto principal.


Um dia eu estava muito carente, coisa de criança, então pedi para ela sair e me abraçar. Com voz de choro, ela me sussurrou atrás da divisa que sempre nos separou:

“Desculpa, filho... hoje a pele da mamãe está derretendo”

De pirraça, fui até todas as torneiras e as abri, todas ao mesmo tempo. Foi quase que um som de cachoeira, dentro de casa. Ela gritou e disse para desligar todas, e que iria me contar uma história. Ela me disse, que quando uma pessoa gasta muita água, bem mais do que precisa, ou brinca com a mangueira ou dá muitas descargas, o espírito da “Afogada” vinha te pegar.

“E o que acontece?” Perguntei interdito.

“Ela repõe a água desperdiçada com seu sangue” disse-me ela.

Lembro que nos próximos dias fiquei evitando de ligar muito a torneira, e até economizava sempre que conseguia. Um dia, fui nadar com meus parentes, onde juro que escutei algo por de baixo do azulejo da piscina. Quando nadei mais fundo para ouvir, uma pressão repentina me segurou para baixo, me impedindo de voltar para a superfície. A sorte foi que meu pai pulou na mesma hora e me salvou. Ele perguntou o que diabos havia acontecido e se eu sabia nadar. Em prantos e desesperado eu respondi: “A Afogada! Ela tentou me matar!”. Expliquei a ele sobre a lenda que mamãe me contara.

Papai me disse que aquilo era invenção, que minha mãe inventou toda aquela história só para eu não gastar com a água e dar prejuízos.

Fiquei revoltado. Ela nunca me conta nada, e agora estava mentindo? Ela achava mesmo que era só uma criança estúpida? Eu merecia saber das coisas, eu precisava saber. Naquela mesma noite, entrei no banheiro, sem mais nem menos. Ela se levantou da banheira, perguntando:

“Filho? Tudo bem? Aconteceu alguma coisa?”

“Mamãe, por que você fica nessa porcaria de banheira? Me conta! E não me venha colocar a culpa na Afogada!”

Com lágrimas nos olhos, ela dizia:

“Filho, a mamãe... é doente. Eu preciso ficar nessa banheira. É lógico que eu não gosto, mas preciso! Desculpa ter te assustado”

“Mamãe!”

Corri até ela para a abraçar, ignorando o fato do chão estar molhado. Escorreguei pra cima dela, e o impacto fez ela cair também. Ouvi o mesmo barulho de quando na piscina.Um impacto silencioso contra a porcelana. Ela bateu a cabeça na quina da banheira e caiu lá dentro. Eu fiquei paralisado, olhando para ela Fiquei vendo a água entrar pela sua boca, ela submersa enquanto seu sangue se misturava com a água da banheira. Ela não tinha morrido na hora, a batida tinha somente havia paralisado seu corpo. Ela morreu afogada.


Anos se passaram, eu cresci, envelheci. Me casei, virei pai. Mas sempre que vou tomar banho, ou chego perto de uma poça, eu a vejo. Vejo a Afogada me esperando, me julgando. Vejo ao lado dela minha mãe, agonizando com os olhos, esperando a ajuda que não dei quando mais novo. É um pesadelo.

Agora só me resta esperar o dia em que a afogada me leve até meu inferno submerso em águas terríveis de culpa.


 
 
 

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