top of page
Buscar

DECADÊNCIA Ato I- Crueldade

  • 28 de jul. de 2023
  • 9 min de leitura

Atualizado: 30 de jul. de 2023

Em Decadência só existe um objetivo: Eliminar o máximo de seres que sua facção conseguir. O mundo fora divido em diversos continentes, áreas territoriais extensas nas quais uma facção especifica manda, as chamadas facções superiores. O objetivo de todo ser vivo nesse mundo é eliminar quantas facções conseguir, de qualquer forma possível, para assim, chegar até o continente do monarca. Tendo realizado esse feito, a facção campeã poderá escolher entre dois caminhos: Criar seu próprio continente ou alcançar o continente livre. O continente livre é um espaço separado no mundo sem nenhuma dessas regras, um lugar de paz e longe da matança. Algumas facções almejam chegar a esses caminhos, passando por cima de todas as outras para alcança-lo.

A história irá girar em torno de Ezikiel Cooper, um garoto bondoso e gentil que coloca a vida dos amigos acima da sua, porém, que irá aprender os horrores que o mundo de Decadência tem a oferecer.




Nossa história começa com Ezikiel aos seus 9 anos, caçando com Beatriz, sua vizinha e melhor amiga. Secretamente, Ezikiel gosta dela, porém tendo Beatriz já seus quinze anos, o garoto tem vergonha de lhe dizer isso. Ambos procuravam uma cobra especial a pedido do líder de sua facção. Eles andavam atentos ao redor de um enorme arbusto, procurando minuciosamente pela criatura.

-Ziki, ei Ziki!

-Oi? Tudo bem aí? Já achou ela?

-Ainda não. Ei! Você sabia que as cobras-covinhas detectam calor e com isso percebem presas de sangue quente?

-Como assim?

-Elas meio que conseguem enxergar no escuro e sentem o calor das vítimas.

-Isso não tá ajudando muito, Bea- Ezikiel tentava conter o medo em seu tom de fala.

-Fica tranquilo, elas são pequeninhas. A doutora Espinoza que me contou.

-É, pois é, a doutora Espinoza disse que aquele Javali-Polvo do outro dia também deveria ser. Ele quase comeu minha perna!

-Você chorou que nem um bebê nesse dia- Bea não conteve a risada genuína enquanto relembrava do cômico caso do javali-polvo - Ainda bem que seu irmão apareceu, né?

-Pois é. Ele detonou aquela coisa feia.

Beatriz pegou em seu bolso um pedaço de barbante. Andando de forma furtiva, ela foi atrás de Ezikiel e jogou o barbante em suas costas por de baixo da camisa dele. O garoto gritou e se jogou no chão completamente apavorado enquanto a menina gargalhava alto.

-Não teve graça- Ezikiel estava extremamente envergonhado, embora tenha achado a pegadinha divertida.

Enxugando as lagrimas de riso, Bea notou uma movimentação nas folhas do arbusto para mais perto.

-Ziki, cuidado.

-É ela agora? Ai meu Deus é o bicho!

Uma cobrinha filhote se aproximara deles com um pequeno sorrisinho sem presas na boca. Olhava as crianças com aqueles pequenos olhinhos pretos e parecia estar genuinamente interessada para entender o que estava acontecendo ali. Beatriz se apaixonara na criaturinha, já pensando no seu nome antes mesmo de pensar em adota-la.

-É isso? O animal que o líder pediu era essa...coisinha?

-A coisa mais fofinha do mundo. Cadê o bonitinho? Cadê, cadê??

A cobra praticamente pulara na mão de Beatriz esperando carinho. As duas crianças se olharam e sorriram com um ar de missão comprida.

Mais tarde, antes do sol se pôr, os dois foram até o chalé de abrigo próximo ao acampamento da facção. Mesmo sendo muito novos os dois já sabiam o perigo de andar durante a noite. Sentados no sofá da sala de estar, um do lado do outro de costas para uma janela que revelava a linda paisagem alaranjada do pôr do sol atrás deles, Bea perguntava:

-O que você acha de Richarlyson? -Perguntou Bea com a cobra-covinha no colo.

-Para o nome da coisa?

-Não é uma coisa, pare de falar assim dele.

-Certo, foi mal. Não sei não. Não tem cara de Richarlyson.

-E Charleston?

-De onde você tirou esse nome?

-Já sei. Vai ser Alfredo.

-Esse nome é muito feio, escolhe outro.

-Vai ser Alfredo, não quero nem saber.

Ambos ficaram num silencio desconfortável até Beatriz quebra-lo com uma frase carregada de gratidão:

-Obrigada, Ziki.

-Ahn... de nada..., mas pelo que?

-Por estar aqui. Você é meu melhor amigo.

Ezikiel admirava a beleza de Beatriz. Rosto fino, macio, longos cabelos castanhos terminados em tranças com alguns fios soltos pela testa. Algumas sardas espalhadas pelo nariz. Usando um decote nem tão revelador, mas que já o deixava desconcertado por estar perto. Ela era perfeita. Ezikiel juntou toda a coragem que tinha e respirou fundo para se declarar. Poderia ser uma ideia estupida, mas ele não se importava.

-Bea, eu gosto de voc...

Um som mudo de vidro sendo quebrado foi ouvido por Ezikiel. Sangue. Por algum motivo havia sangue diante dele cobrindo todo o ambiente majestoso que antes admirava. Foi quando ele se deu conta. Beatriz havia levado um tiro na cabeça. Desesperado, Ezikiel correu em direção a ela se abaixando atrás do sofá. Rajadas de tiro de metralhadoras destruíram toda a sala de estar. Algumas conversas distantes foram ouvidas:

-Deitamos um deles. Entrem.

-Matem todos esses merdinhas da Refflesia.

Chorando, assustado e confuso, Ezikiel analisou melhor o corpo derrubado da amiga. O tiro não fora fatal. Uma bala grossa explodira todo o lado direito da linda face de Beatriz, a deixando a beira da morte. Ezikiel não sabia o que fazer. Tentando clarear os pensamentos, pensou com racionalidade. Essa arma que foi disparada em Bea não era uma arma comum. Arma demoníaca. Sim, seu irmão já havia lhe falado desse tipo de armamento. Provavelmente era a facção Luciferiana. Ezikiel ouvira seu irmão e o líder conversando sobre eles estarem se aproximando, porém, escutara que eles ainda iriam demorar no mínimo alguns meses até chegar no acampamento.

-Parece que chegaram antes- disse Ezikiel em voz alta sem perceber.

-Aqui! Mais um- Ezikiel reconheceu s voz do atirador, Leraje, membro conhecido por por causar grandes batalhas e conflitos armados. Ouvira também alguma coisa sobre putrefação, mas não se lembrava do que era.

A mesma arma foi disparada contra o sofá que protegia as crianças, despedaçando metade dele. Ezikiel só teve tempo de pegar uma das armas de fumaça que Beatriz levava na mochila e arrebenta-la no chão com toda a força. Com todo o ambiente envolto em fumaça cinzenta escura, Ezikiel colocou o braço Beatriz envolta da nuca e se arrastou com ela para fora do chalé. Ezikiel se moveu o máximo que pode pela floresta tentando não tropeçar em galhos e raízes elevadas, evitando ser baleado e tomando cuidado para a amiga não cair. Os dois chegaram até uma espécie de construção grande abandonada de pedra com alguns lugares para poder se esconder. Indo até uma pilastra oculta nas sombras, Ezikiel se escondeu atrás dela, tentando ouvir passos inimigos chegando perto. Mais um tiro da arma foi disparado, explodindo uma pilastra de pedra bem do lado da qual Ezikiel se escondera.

-Pode sair daí, Refflesia- Dizia a voz suave e levemente sedutora de Leraje- Estamos quase alcançando a meta de mil mortes, e juro por Satã, vai ser com vocês que vamos conseguir.

Leraje usava roupas de época neoclassicista, usando na cabeça um chapéu redondo com uma pena na ponta. Sua arma, empunhada na mão esquerda, se assemelhava muito a uma pistola, porém muito mais comprida e com uma mira anexada por todo o cano da arma.

Vários membros da facção chegaram e cercaram o perímetro da construção. Todos miravam para onde Ezikiel estava.

-Não tem para onde ir. SAIAM DAÍ SEUS DESGRAÇ...

Um disparo certeiro no meio da boca de Leraje fez com que sua bochecha esquerda fosse explodida numa bolha de sangue. Acima da construção um homem se elevava triunfante e orgulhoso pelo disparo. Kaleb Cooper preparava um outro tiro de estilingue, usando dessa vez uma pedra grossa rachada, que após ser disparada espalharia estilhaços, matando no mínimo três pessoas próximas com um só tiro. Leraje se reposicionou atrás das árvores às suas costas.

-Zikiel? Tudo bem? Deixa esses vermes aí para o ser maninho aqui, ok?

-Ka? É a Bea! Ela tá muito machucada!

-Cuida dela, a doutora tá vindo.

Um tiroteio insano se seguiu, com Kaleb derrubando cerca de dez pessoas com seus tiros de estilingue. Mas de forma repentina, um tiro de sorte de Leraje atingiu Kaleb na perna, o derrubando do alto da construção em a uma ladeira terrosa rumo a um riacho. O grupo, ou que restava dele, se dividiu em dois: Sete foram em direção a ladeira terrosa querendo finalizar Kaleb, liderados por Leraje, enquanto os outros quatro, incluindo o braço direto do líder, Focalor, um homem alto e forte com compridos cabelos negros com uma postura de superioridade, caminhava em direção ao garoto. Focalor exibiu as grandes asas de grifo pretas as abrindo e flutuando levemente em direção ao esconderijo de Ezikiel. Todo esse tom obscuro era contrário a palidez de sua pele, lisa e isenta de ferimentos.

-Não há muito o que se fazer aqui, criancinha. Vou estar te livrando da crueldade do mundo, se alegre.

-Vai fazer isso como? Me matando?

-Certamente.

-Ah, mas que gentileza a sua. Vai pro inferno!!

-Eu tentei do jeito fácil. Agora vem meu jeito favorito.

Focalor colocou em todos os dez dedos da mão anéis pretos que contaminaram sua pele com eletricidade negra. Com um movimento de mão relâmpagos pretos foram disparados em toda a área. Todo o lugar que estava consumido pela noite se clareou e Focalor conseguiu localizar exatamente a posição de Ezikiel. Os anéis mudaram de símbolo e desferiram em Focalor outra onda de raios pelo corpo. Com outro movimento de mão, ele disparou raios negros em direção a pilastra protetora de Ezikiel, que explodiu e feriu superficialmente as costas do garoto.

-Te achei, garotinho.

-Não diga.

Ezikiel se jogou para trás junto com Beatriz caindo numa pequena ladeira com um pedaço de terra seguro no final, pequena porção segura antes de despencar para o abismo no qual o irmão foi jogado. Ezikiel pensou rapidamente no que usar ou no que poderia fazer antes de Focalor chegar ou qualquer um dos outros três. Havia na mochila de Bea outra arma de fumaça. Não seria muito eficiente em um lugar aberto, mas daria um pouco mais de tempo a Ezikiel. Pegando a arma e prestes a joga-la no chão, Raum, outro membro da facção Luciferiana, usou sua habilidade de roubo para tirar de Ezikiel a última cartada que ele tinha. A arma de fumaça desapareceu da mão do menino e reapareceu sob posse de Raum, um ser curvado e nu que utiliza apenas um crânio de pássaro gigante como máscara. Focalor se pôs a direita de Raum, sorrindo de forma arrogante para Ezikiel.

-Agora vem a parte que você e a vadiazinha da sua amiga morrem.

Antes de eletrocutar as crianças, a cabeça de Focalor foi atingida com algum tipo de corda elástica que se amarrou a sua testa e forçou sua cabeça contra o chão, o derrubando. Ezikiel reconhecia essa arma. Era a arma do líder. Noah Olsen, líder da facção Refflesia estava no alto da construção quando soltou a cabeça de Focalor e redirecionou sua corda elástica para trazer Ezikiel e Beatriz para perto de si. Raum até tentou roubar a corda antes das crianças chegarem, mas foi surpreendido por um ataque poderoso de Espinoza, a doutora da facção, que o nocauteou com um cruzado de direita. Após pegar as crianças, o líder também puxou a doutora e os quatro fugiram do lugar se pendurando de árvore em árvore com a corda. O líder separou a corda em duas, uma para entrelaçar os três próximos a si e a outra para se pendurar pelas árvores para longe dali.

-O meu irmão ainda está lá, a gente precisa voltar!

-Essa não é nem a metade da facção Luciferiana Ezikiel- disse o líder com pesar- Os outros chegarão em breve. Conheço Kaleb, ele resistirá e irá retornar a nós.

-Certo. Doutora- Ezikiel se lembrara do rosto desfigurado da amiga logo ao seu lado- Bea se machucou muito, você pode ajudar?

-Precisamos chegar até o acampamento primeiro, querido. Lá irei salvá-la. Prometo.

Após dez minutos estavam os quatro já na sala de operações. O líder disse gentilmente para Ezikiel:

-Precisamos dar espaço para a doutora.

Era visível a preocupação e angustia de Ezikiel com toda essa situação repentina. Doutora percebeu esse nervosismo e disse enquanto amarrava o cabelo e vestia as luvas de cirurgia:

-Vou conseguir, Ziki, prometo.

Ezikiel ficou o tempo todo do lado de fora da sala de cirurgia. O líder saiu para discutir sobre estratégias de batalha com o vice-chefe de Refflesia, Barutir. Completamente mergulhado numa sensação de ansiedade e medo, Ezikiel se controlava fazendo carinho em Alfredo, a cobrinha de Beatriz.

-Vai dar tudo cedo, Alfredinho. Ela vai ficar melhor.

Depois de cerca de três horas de operação, Doutora saiu da sala suando e cansada. A doutora é uma das mulheres mais lindas da Refflesia, mesmo estando sempre cansada e movida a cafeína. Olheiras grandes e roxas preenchem seus olhos, cabelos sempre bagunçados e postura ruim. Mesmo assim, é belíssima. Ezikiel se preparava para ouvir as boas notícias e ver como a melhor amiga estava. Contar que não se esquecera de pegar Alfredo e de que o irmão os havia salvado novamente. Ezikiel já memorizara tudo o que iria falar para a melhor amiga quando ouviu da doutora uma frase que ficaria cravada em sua mente para sempre.

-Sinto muito, Ziki. Ela não aguentou.

Naquele mesmo momento, Ezikiel compreendeu a crueldade do mundo que o cerca. Jogado em um vazio indescritível e solitário, Ezikiel se forçou a sorrir e a ser aquele mesmo garoto carismático e esperançoso de sempre durante os próximos oito anos, porém ele, e somente ele sabia que algo havia se despedaçado dentro de si. Mesmo assim, se recusou a entregar-se a tristeza. Sempre sorrindo e feliz, ele ajudou todos da Facção Refflesia como podia. Após oito anos, o não mais garoto recebia uma mensagem que o deixara genuinamente preocupado. Era sobre seu irmão.




 
 
 

Comentários


Bestiário Espirais do Medo

  • Pinterest
  • Instagram
bottom of page