O QUADRO DA MADAME
- 28 de mai. de 2023
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Depois da morte terrível de sua esposa, ele queria recomeçar, mesmo sabendo que esse recomeço era apenas um pretexto para fugir de toda culpa que sentia. Batendo com cuidado a porta do carro e dando a volta para se despedir, ele sentiu um frio de ansiedade rabiscar suas pernas.
“Obrigado pela carona”.
“Tem certeza de que você está bem, cara? Pode continuar morando com a gente por mais um tempinho se quiser”
“Não precisa, eu estou bem, de verdade” - mentiu ele para ele mesmo, com um sorriso pouco feliz no rosto.
O carro de seu amigo se distanciou aos poucos, deixando espaço para o vazio gelado que rapidamente ocupou o lugar quente do veículo, este que começou a seguir reto na estrada até desaparecer na densa névoa. Inspirando profundamente ele entra na nova casa, ainda vazia pela falta de móveis. Se sentindo perdido e deslocado, algo se sobressai a seus sentidos. Um quadro de uma madame pintado a óleo. O quadro era belíssimo. Retratava uma linda senhorita de pele branca feita neve, com pequenas marcas de bronzeamento vermelho, com sardas espalhadas pelo rosto liso e delicado, preenchido por um par de olhos tão castanhos feito madeira. Os longos cabelos pretos sedosos com alguns fios soltos pelo rosto. Ela usava um chapéu branco e vestimentas de cores creme, ao fundo de uma praia com o céu alaranjado do pôr do sol.
Porém, no mesmo momento em que ela era repleta de detalhes, a pintura e a própria madame pareciam ocas, superficiais, falsas. Voltando sua mente ao telefonema que recebera, ele teve a noticia de que seus pertences chegariam apenas pela manhã seguinte.
Com a chegada da noite ainda mais fria do que o dia, ele se preparava para dormir quando uma corrente de ar desigual forçou a chama da lareira para a frente, até ficar azul sobre o pavio preto e se apagar. Cansado demais para dar atenção aquilo ele se virou e adormeceu, ignorando mais um de seus problemas. Acordando sem motivo aparente, ele tomou um leve susto, já que pensou ter visto uma figura o observando, parada e coberta parcialmente pelo portal da porta, o encarando até ela ser dissipada pelo ajuste de sua visão. Averiguar o induzia a ideia de revolução, superação de sua covardia, mas, no fundo de sua condenável alma, ele sentia que não importava o caminho que tomasse, este seria cinza e sem vida, sendo que a única escolha de verdade seria qual dos caminhos ele acinzentaria com o tempo. De frente ao fim do corredor, ele teve a sensação de que algo terrível estava prestes a acontecer. Um calafrio lhe percorreu a espinha como se seu subconsciente já tivesse entendido alguma coisa que ele ainda não havia percebido. Se aproximando lentamente, ele teve apenas uma certeza, de que as coisas nunca mais seriam as mesmas. Um sentimento, um estado, uma sensação. Pavor. O quadro, que antes representava uma linda madame, havia mudado.
No lugar das lindas sardas, do rosto corado e olhos serenos, havia inúmeras deformidades em sua face, jogadas de forma assimétrica, terminando em bolhas derretidas em volta de um enorme buraco onde deveria haver o rosto da madame. A paisagem nublada repleta de corvos, com a água do mar avançando e retornando carregando parte do sangue que ainda escorria pela face destruída dela. Ele tentou gritar, berrar por socorro, mas a sua voz era muda, inexistente. Congelado em ondas de perplexidade que iam e vinham atingindo-lhe como milhares de agulhas pelo corpo todo, ele começou a perceber um sutil movimento.
A mão da madame se apoiava na lateral da moldura, ajudando o corpo dela a se conduzir para fora. A dama morta estava não apenas se movendo, mas saindo do quadro. Foi nesse pico de adrenalina que ele finalmente assimilou o que estava acontecendo e começou a correr desesperadamente sem um plano ou direção, apenas tentando fugir daquilo. Porém, a cada esquina e novo cômodo em que chegava, um quadro era encontrado com a tal figura saindo dele de forma anormal e desumana. A casa lhe sussurrava que isto era um castigo, uma punição, até ele perceber que todas essas vozes eram a dele mesmo. Ele enxergava o rosto de sua esposa naquele monstro. Numa profunda respiração, começou a refletir.
“Não. Não era assim que ela era, essa foi apenas a maneira de como ela partiu, não representa a realidade. Até quando uma falsa ultima memória vai me perseguir? A morte é apenas consequência da vida. A morte é apenas consequência da vida. A morte é apenas consequência da vida.” -repetia, tentando se forçar a acreditar nessa filosofia que havia inventado.
Mas ao abrir os olhos, ela ainda estava lá, a madame sem rosto se aproximava, cada vez mais. O vácuo no rosto dela representava a verdade e a falta de coragem dele de enxergar a realidade bem a sua frente por mais feia e perturbadora que fosse. Sua esposa tinha morrido de forma trágica, definhando aos poucos, passando meses numa cama de hospital. Ele não teve coragem de passar os últimos momentos dela com ela. Ao invés disso, os últimos suspiros de sua esposa foram numa madrugada fria, onde ela morreu sozinha, nem sequer conseguindo chorar devido aos ferimentos em sua face. A verdade que o perseguia, que lhe batia a porta todo dia e que ele sempre ignorava, estava a sua frente agora, e iria o consumir se ele não aceitasse tudo. A culpa, o remorso materializado diante dele como uma criatura terrível. Seus desejos, suas escolhas, seu medo iriam o perseguir até o resto de sua vida, e se isso fosse acontecer, pensou, seria melhor que ele ao menos enxergasse e aceitasse que eles eram reais.
Assim como surgiu a madame se desvaneceu, ecoando inutilmente um ultimo apelo de depressão, porém, entendendo e assumindo tudo isso, nosso protagonista não precisava mais da existência da madame naquele quadro, ele só precisava lidar como que ela representava, o que sinceramente, ele achava muito pior.





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